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Por um natal com menos presentes

O natal do brasileiro este ano deverá ser menos farto e generoso no número e no preço dos presentes. Culpa da crise. Mas quer saber, isso pode ser bom.

Natal da Crise

Crises são períodos excelentes para pensar a vida. O Natal, por exemplo. Natal é tempo de celebrar a união. Um bom natal se mede pela qualidade das relações e não pela quantidade de presentes. Mas essa conta não anda fechando. Não é novidade pra ninguém que há tempos o consumo tomou pra si a data.

 

natal nyFaz tempo que o natal é “business”. Capa da revista New Yorker de 1937.

O Natal ganhou um novo significado, virou um período de compras. Uma época de shoppings lotados e centros comerciais abarrotados de gente. Compras e mais compras. Mas em muitas famílias a felicidade alcançada com as compras não resiste nem mesmo ao almoço do dia 25. Desaparece rapidinho. São presentes e ceias carentes de significado, de sentimento verdadeiro. Por isso está na hora de resgatarmos o verdadeiro espírito do natal. Sai o natal ostentação. Entra o natal conexão.

Sabe aquela história de que o Papai Noel é criação da Coca-Cola? Então, é mito. Confira aqui.

A origem do Natal

O natal tem origem em festas pagãs do hemisfério norte, nas quais o sol era a grande estrela. As festas celebravam o solstício de inverno, ou seja, o dia mais curto do ano no hemisfério norte. Isso porque a partir desse período (entre 22 e 25 de dezembro) as horas de luz começam a ser mais longas a cada dia. As festas eram uma maneira do povo agradecer o retorno do sol que trazia com ele melhores condições para plantar e sobreviver.

Essas festas pagãs eram muito populares, o que levou a comunidade cristã a integrá-las ao seu calendário no ano de 354 d.C., afim de não perder fiéis. Mas no lugar de celebrar o sol, o cristianismo instituiu o dia 25 de dezembro como sendo o dia do nascimento de Jesus Cristo (a data verdadeira é incerta, mas pesquisadores acreditam que deve ser entre os meses de verão do hemisfério norte, entre junho e setembro). Independente de religião, em ambos os casos as festividades eram muito parecidas, com ritos espirituais e reuniões familiares para agradecer, louvar e celebrar.

natal - papai noel - Pais em Apuros!
E aí! Quem será que ganha essa batalha?

Natal à moda Tio Sam

Nem sol, nem Jesus. No século XXI, o mercado subverteu a motivação natalina. O natal virou uma data, sobretudo, comercial. Nos Estados Unidos, por exemplo, o Dia de Ação de Graças é um feriado que a princípio serve para preparar os corações das pessoas para as reuniões de de natal. Mas cada vez menos a data é utilizada para reunir as famílias. Culpa da Black Friday. No lugar de encontros com gente querida para agradecer à Deus pelas benesses do ano, milhares de americanos se digladiam em lojas por produtos de todos os tipos.


Natal no século XXI – Quase uma barbárie para comprar presentes. Tipo Walking Dead :/

E esse natal à moda americana chegou até mesmo na China. Mesmo sendo um país de maioria ateia, na China o natal também é comemorado. Só que no lugar de reuniões familiares, são as compras que ditam o ritmo. Para muitos comerciantes, as vendas de Natal já superam as do Ano Novo Chinês. O festival de compras natalinas faz a cabeça principalmente dos mais jovens, ávidos por se tornarem mais cosmopolitas e ocidentais (leia consumidores vorazes) como os americanos.

natal - papai noel - Pais em Apuros!
Tradução: “Eu quero que você gaste muito para provar que ama sua família”.

A simplicidade está na moda

O comportamento dos jovens chineses vai na contramão de uma das tendências mais comentadas no mundo em 2015: o consumo consciente. Comprar sem necessidade e ostentar agora é brega. Ao menos para uma significativa fatia da população mundial. Muitas pessoas agora querem comprar menos e melhor (produtos mais duráveis e produzidos com responsabilidade social/ambiental).

Um bom velhinho de verdade – José Mujica, ex presidente do Uruguai.

Esse comportamento de muitos consumidores já tem até nome: “lowsumerism”. O termo significa consumismo lento e foi cunhado pela agência de tendências de consumo Box 1824. Como explica Rony Rodrigues, sócio da agência, em reportagem da revista Trip (leia aqui), “A questão primordial a partir de agora é tentar quebrar a lógica de consumo dentro da nossa cabeça e a cada vez que surgir a ideia de comprar algo, se perguntar. Você realmente precisa disto? Você pode pagar por isto? Você conhece a origem deste produto ou para onde ele vai depois de descartado? Você está comprando isto influenciado por campanhas?”, explica Rony.

A ascensão do Consumo Consciente

Comprando consciente

Claro que existe um contraponto nessa ideia do consumo consciente. O dinheiro não é um vilão. Não se trata de travar uma batalha contra o consumo. Até mesmo porque existe um mercado se formando pautado nesse ideal. E muitos produtos “conscientes” acabam sendo mais caros, como é o caso dos alimentos orgânicos e de roupas de grifes que não utilizam mão de obra de países subdesenvolvidos. O vilão é a compulsão por comprar.

True Cost - Pais em Apuros
O custo real – O mundo consome 80 bilhões de peças de roupa por ano. Às custas da vida de pessoas pobres e do meio ambiente. Assista o trailer:

Pausa para um Contraponto

Mas calma, a mudança de mentalidade das pessoas acontecerá aos poucos. A própria ideia do consumo consciente ainda não é para todos. É uma prática mais percebida na classe média e entre os ricos.  Seria injusto cobrar das classes mais humildes da sociedade tal compromisso hoje. Pois atualmente é inviável, porque o contexto econômico não é favorável. Falta informação (as pessoas não sabem quais marcas são mais responsáveis) e dinheiro (produtos politicamente corretos são mais caros que os made in China, por exemplo). Tão pouco é válido recriminar jovens  que nunca tiveram condições de comprar um tênis Nike, se estes após o primeiro emprego esbanjarem na ostentação adquirindo vários pares. “Cool” é ter pouco, sim, mas só pra quem já teve a experiência de ter muito.

Mesmo assim o caminho para um consumo menor também já pode ser identificado entre os mais pobres, mas motivado, sobretudo, pelas dívidas. Em todo caso, está se desenhando um natal com menos presentes.

Emicida - Consumismo - Pais em Apuros

Em 2015 a revista TPM  publicou uma excelente reportagem sobre a dificuldade de incluir toda população no consumo consciente, confira.

E a criançada?

Ok, mas daí a não presentear as crianças no natal é muita crueldade, você pode pensar. Pois saiba que talvez elas não sintam falta, mas desde que as experiências em família preencham o espaço da diversão que muitos pais terceirizam para os brinquedos.

dannemiller - - Consumismo - Pais em Apuros
Conheça os Dannemiller – O casal Scott e Gabby abriu mão de comprar coisas por um ano e seus filhos nem perceberam.

Foi o que fez com o casal americano Scott and Gabby Dannemiller. Em 2013 eles decidiram passar um ano completo sem comprar roupas, aparelhos eletrônicos, brinquedos, móveis e toda sorte de quinquilharias. O plano foi mantido em segredo dos filhos Audrey, de 5 anos, e Jake, de 7, e a grande surpresa ficou para o final do desafio: os filhos não notaram a mudança. Questionados pelo jornal The Tennessean, sobre qual a diferença do ano de 2013 para os outros anos de suas vidas, Jake e Audrey apenas disseram que em 2013 eles viajaram bastante e se divertiram mais com a família. Nenhum dos dois sequer citou o fato dos pais não terem lhes comprado nenhum brinquedo ou algo do tipo.

 O segredo: Scott e Gabby substituíram os brinquedos por experiências em família, como viagens e passeios. A atitude estreitou e melhorou o relacionamento familiar.

Menos presentes. Mais presença.

Assim, não se trata de travar uma batalha contra o consumo. A ideia é incentivar o resgate do verdadeiro espírito do natal: do amar ao próximo como a si mesmo, dos cristãos, ao agradecer o ano e celebrar a vida de um novo ciclo, como faziam os antigos povos pagãos. E o mais importante no tocante às famílias: se relacionar de verdade.

10 paezinhos - Pais em Apuros!
Por mais conversas “de verdade” neste natal.

Por isso, neste natal, no lugar das compras, que tal se empenhar em se relacionar melhor e verdadeiramente com as pessoas? Uma dica para alcançar esse objetivo passa por mudanças de comportamento simples, como diminuir o número de garfadas e drinks, e dar mais atenção ao outro. Fazer do “Tudo bem, como você está?” na noite de natal, uma pergunta de verdade, não um breve cumprimento banal. E no lugar de trocar presentes, trocar afeto.

Se cada vez mais pessoas adotarem essas atitudes, com certeza, será possível concretizar o desejo proposto por Charles Dickens no clássico da literatura “Um Conto de Natal”. No livro, o escritor define um bom homem como sendo aquele que honra o verdadeiro espírito natalino em seu coração e que tenta conservá-lo durante todo ano.

Bora tentar?!

***

pais natalNatal Pais em Apuros – Não somos contra o consumo, somos contra gastar sem pensar. Pensar é de graça!

 

Confira também os textos:

“Afinal, Papai Noel existe?”

Medo do Papai Noel. Como lidar?

***

Autor desta Publicação
Gilmar Silva
Jornalista e educador.

Comentários

2 Comentários
  1. publicado por
    Medo do Papai Noel. Como lidar? | paisemapuros.com.br
    dez 17, 2015 Reply

    […] Especial Natal Pais em Apuros – Confira também o texto “Por um Natal com menos presentes” […]

  2. publicado por
    Afinal, Papai Noel existe? – paisemapuros.com.br
    dez 23, 2015 Reply

    […] “Por um Natal com menos presentes” […]

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