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Um bebê na bicicleta

O casal Allan e Annete são adeptos, desde 2008, da bicicleta como principal meio de transporte. Recentemente o casal teve um filho, o pequeno Tomás (1 ano e oito meses), e desde a chegada do bebê o casal notou diferenças ao se locomoverem pela cidade de bicicleta. Confira neste post o relato que Allan escreveu para o Pais em Apuros contando as novas possibilidades que levar o bebê para passear de bicicleta propiciou ao casal no trânsito. Verdadeiras lições sobre mobilidade urbana e cidadania aprendidas com um bebê. 🙂

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UMA BICICLETA, UM FILHO: NOVAS ATITUDES

Coisas que um bebê pode nos ensinar sobre mobilidade urbana.

Escrito por Allan Yu Iwama para meu amigo João Gambini (Pais em Apuros).

A bicicleta

Deixem-me contextualizar para fazer jus ao título no que se refere à bicicleta. E começa pelo carro, ou melhor, pelo seu abandono. Desde 2008 eu e minha esposa deixamos de usar o carro, época em que moramos no Rio de Janeiro. Deixamos de usá-lo por pelo menos 2 motivos interligados: (1) estávamos numa região central (com acesso fácil ao ônibus, além de facilmente pegar um táxi em qualquer lugar que você esteja ali (para quem conhece a cidade maravilhosa, sabe que há taxis ‘a rodo’), e muito próximo à orla da praia; (2) nosso carro era um Verona cor vinho de 1996, lindão (pois tínhamos acabado de fazer a pintura), mas que ficava parado muitas vezes na R. Gen Ribeiro da Costa porque não tínhamos lugar na garagem do prédio – questão que persiste em cidades grandes à beira mar. E chovia bastante no verão. E o carro, já com suas frestas mais vulneráveis às intempéries, ficava sempre com cheiro de umidade e frequentemente a bateria ‘arriava’. Assim, o carro parado, antigo, estava nos dando despesa, e nós, numa localização privilegiada (central), optamos finalmente por deixar o carro de vez.

A bicicleta, enfim, sempre fez parte de nossas vidas. Mas agora, era nosso meio de transporte. E no Rio, era uma delícia usá-la para essa finalidade.

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Nada de limousine – O casal foi de bicicleta para a festa do seu casamento.

O filho

Em 2013, nos mudamos para São José dos Campos, cidade que adoramos. E optamos mais uma vez por morarmos em uma região central, para facilitar o acesso ao supermercado, farmácia e infraestrutura básica. Mas o que mais mudou nessa mudança, foi a vinda de Tomás, que completou 1 ano e seis meses dias atrás. É certo que muita coisa mudou desde seu nascimento: nossas vidas, para começar, mas, sobretudo, nosso olhar sobre nossas atitudes. Essa é a parte do título que faz jus ao filho.

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Tomás na barriga da mamãe Annete, indo de bicicleta ao SESC São José dos Campos. 2013.

Ter Tomás conosco, começa por aprendermos a fazer as coisas de forma rápida, eficiente e na hora. Não quer dizer que tivemos sucesso (e que tenhamos) na maior parte das vezes, pelo contrário. Mas esse foi um primeiro ensinamento: olhe, preste atenção, veja o que a pesso(inha) precisa, cuide dela como se fosse de você mesmo.

As atitudes e percepções

Para muitos isso é óbvio – se colocar no lugar do outro –, mas confesso, só fui internalizar isso depois que Tomás se juntou a nós. Na prática, o lugar onde mais tenho presenciado que o que parece óbvio é deixado de lado, é nas ruas, no dia-a-dia.

Já perceberam que quando:

1 – Estamos no modo ‘pedestre’ e pisamos numa faixa de pedestre em algum cruzamento de rua ou avenida, são raras as vezes que um carro ou moto permite que atravessemos (a não ser que haja sinal e esteja fechado). Agora, todas às vezes (até o momento) que, no modo ‘pedestre’ pisei na faixa com Tomás no colo, todos nos permitiram passar (onde não havia sinal, claro). Incrível!

2 – No modo ‘bicicleta’ acontece o mesmo. Com Tomás, eles [veículos motorizados], nos deixam passar. Sem Tomás, cuidado!

3 – Agora, no modo ‘bicicleta’, com Tomás, nós temos evitado pedalar pelas ruas. Ou seja, pedalamos na calçada. Sim, sim, está longe do ideal e até errado para alguns! Mas como não temos carro, adoramos usar as bicicletas, e não queremos colocar em risco a vida do pequeno, seguimos pelas calçadas compartilhando com pedestres. E no modo ‘bicicleta’ com Tomás, confesso, é uma curtição! Curtição porque ele aponta para os ônibus, ele escuta os passarinhos e me mostra que escutou colocando o dedinho no ouvido, ele chama o ‘ua-ua’ – é como ele chama o cachorro –, ele vê tudo e sente tudo! Na última parada no sinal vermelho para os veículos – na Av. João Guilhermino –, ele mexeu com uma pessoa e ela sorriu!

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Nossa participação no 1º Escola Bike Anjo de SJC – São José dos Campos. 2015.

Outro dia, quando cruzamos um ciclista – na Av. Ademar de Barros –, eu cochichei no ouvido dele: ‘dá tchau para tio’. E o ciclista, que vinha na nossa direção com a cabeça baixa, concentrado, quando percebeu o aceno de Tomás, abriu um sorriso meio tímido, como quem não faz isso sempre. Hoje, ele dormiu na cadeirinha da bicicleta, e como eu não queria seguir com a cabecinha pendendo para o lado, experimentei parar no Parque Santos Dumont. Para quem já teve que parar a bicicleta com seu filho(a), sozinho(a), mochilas e cadeado, sabe que esta pode ser um bela duma experiência. A mãe que estava tirando sua bicicleta para levar o filho para casa (havia acabado de sair da escolinha), percebendo minha dificuldade, me ajudou com o cadeado. O segurança do parque, também me ajudou com a mochila. E, enfim, deitei com Tomás no gramado do parque. Pedalar, enfim, nos têm permitido experimentar mais as relações com as pessoas no dia a dia. Mais ainda, pedalar com nosso pequeno, essas conexões têm sido cada vez mais ricas e gostosas de viver!

Os apuros

Na calçada há vários desafios quando estamos no modo ‘bicicleta’, com Tomás: prestar atenção nas saídas das garagens com carros; ou quando se está na contramão de veículos, andar mais atento e devagar. E o que ela [bicicleta], com Tomás, tem permitido para nós tem sido pelo menos duas coisas: conectar com pessoas e se nos colocar sempre, no lugar dos outros. Esse exercício de empatia parece-me ser lugar comum quando estamos acompanhados de crianças ou bebês. Quase todas as pessoas nas ruas com veículos param, respeitam, quando há uma criança conosco, não é verdade? E mais, essa conexão não é apenas com as pessoas, é inclusive nós (pais e mães), com nosso filho, pois estamos pertinho dele, do ladinho, cantando ou conversando com ele e a qualquer momento nós podemos receber uma ‘encostada’ de sua cabecinha na gente!

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Annete e Tomás às margens do Rio ‘Le Lez’ – Montpellier, França. 2015.

Mas que tal optarmos pela empatia mesmo sem a presença de um bebê?

A capacidade de ‘enxergar’ o outro, independente de estarmos com uma criança no colo, ou um bebê, talvez seja um primeiro passo para podermos pedalar ou sair caminhando com nossos pequenos pelas calçadas ou ruas menos movimentadas de carros.

Hoje, estamos vivendo uma nova experiência: estamos morando numa cidade no sul da França. E compramos nossas bicicletas! E o que temos percebido é exatamente este respeito que existe pelo outro, sobretudo aos que estão mais vulneráveis. E este exercício de prestar a atenção parece ser um círculo do bem! Pois quando você vê os carros e ônibus parando na curva para passar o pedestre ou o ciclista, e todos parando atrás normalmente, você faz isso também!

As ações

Desde 2012, no Brasil, temos um aparato legal que diz sobre a Política de Mobilidade Urbana – o PlanMobUrb [Lei Federal nº 12.587/2012], que em suma, é um plano diretor dos modais de transportes nas cidades. Seu Art. 1° diz: ‘… é [um] instrumento da política de desenvolvimento urbano […] objetivando a integração entre os diferentes modos de transporte e a melhoria da acessibilidade e mobilidade das pessoas e cargas no território do Município.

E desde que chegamos em São José dos Campos, em 2013, tivemos a oportunidade de conhecer um grupo muito especial que apelidamos a partir de 2014 deColetivo dos Ciclistas de SJC, que desde então vem buscando um diálogo participativo com a Prefeitura Joseense (em particular com a Secretaria de Transportes), buscando disseminar práticas e ações que favoreçam a bicicleta como um modal efetivamente de transporte urbano, e não apenas ao lazer. E muita coisa rica aconteceu em tão pouco tempo: reuniões com a Secretaria de Transportes, atividades nas ruas para conscientização da população sobre a bicicleta como transporte, novas conexões com pessoas interessadas, participação em audiências públicas, movimentos como o Bike Anjo e a Escola Bike Anjo – EBA, bicicletadas, vídeos com as crianças que usam bicicletas e que participaram das bicicletadas, contagem de ciclistas no cruzamento da zona sul da cidade (pela Dutra), e solicitações de ciclovias interconectadas.

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Entendeu? Leva isso pra sua vida,tio(a). Assinado: Tomás.

Enfim, para finalizar, mencionei a Política de Mobilidade Urbana e algumas ações coletivas da sociedade, para reforçar que as leis são importantes para termos um aparato legal da mobilidade urbana nas cidades, mas precisamos ir além das diretrizes da Lei. Precisamos de integração, participação da sociedade com propósitos de um bem comum. E para isso, quando escolhemos uma cidade amiga da bicicleta e ciclável, e acreditamos nisso, temos que construir juntos, conectando as pessoas para este mesmo propósito. E é óbvio, isso vale para qualquer propósito que almejamos. Contei apenas o nosso, junto com nosso pequeno Tomás na bicicleta, que tem nos ensinando a viver em empatia nas cidades!

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Autor desta Publicação
Allan Yu Iwama
Pai do Tomás [24 meses], engenheiro ambiental e pesquisador, e aprecia iniciativas criativas e de educação. Colabora com o coletivo ‘Ciclistas de SJC’ e com a escola aberta Casa dos Pandavas.

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